O Prof. Rodrigo Leite, do COPPEAD, foi recentemente contemplado com a prestigiada Bolsa de Produtividade do CNPq, integrando um grupo muito seleto: ele é um dos 60 pesquisadores no Brasil entre 30 e 34 anos a receber o fomento em 2026 — faixa equivalente a 0,5% do total de bolsas oferecidas. Fruto de um funil rigoroso que avalia a excelência acadêmica e o impacto da pesquisa, esse reconhecimento e apoio ganha ainda mais força no ano em que as Bolsas PQ celebram seus 50 anos.
Especialista em comportamento financeiro, o Prof. Rodrigo investiga como pessoas e instituições tomam decisões no mundo real, destrinchando temas urgentes como o endividamento das famílias e o impacto das apostas esportivas, até a governança de grandes empresas. Nesta conversa, falamos sobre a importância desse incentivo para a ciência no Brasil e como a produção de conhecimento baseado em dados e métodos de excelência transforma a prática de mercado.
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Prof. Rodrigo, você foi um dos 60 pesquisadores na faixa de 30-34 anos (0,5% do total) contemplados pelo CNPq em 2026 com uma Bolsa de Produtividade. Como o senhor recebeu essa notícia e qual o significado pessoal e profissional dessa conquista nesta etapa da sua carreira?
Prof. Rodrigo Leite: Recebi a notícia com muita alegria e com um senso de responsabilidade muito grande. A Bolsa de Produtividade do CNPq é um dos reconhecimentos mais importantes da pesquisa científica brasileira, e ser contemplado ainda no início da carreira representa uma validação do trabalho que venho desenvolvendo ao longo da última década. É também um reconhecimento coletivo, pois nenhuma trajetória acadêmica é construída individualmente. Ela reflete o apoio de colegas, coautores, orientadores, alunos e das instituições pelas quais passei, especialmente o COPPEAD.
Do ponto de vista profissional, a bolsa amplia minha capacidade de desenvolver projetos acadêmicos no médio prazo, formar novos pesquisadores e aprofundar agendas de pesquisa que têm potencial de gerar impacto acadêmico e social. Pessoalmente, ela reforça a convicção de que vale a pena investir em pesquisa rigorosa, relevante e conectada aos desafios reais do Brasil.
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Qual o tema central da sua pesquisa, como o senhor chegou a ele e quais os principais impactos que ela pode gerar para a sociedade?
Prof. Rodrigo Leite: Grande parte da minha pesquisa está inserida no campo da economia financeira, mas meu trabalho também dialoga com áreas como contabilidade, psicologia e políticas públicas. Meu principal interesse é compreender como as pessoas e instituições tomam decisões financeiras e de que forma vieses cognitivos e comportamentais influenciam esse processo, afetando tanto indivíduos quanto organizações e mercados.
Ao longo da minha trajetória, passei a me interessar cada vez mais por questões relacionadas à inclusão financeira, ao funcionamento das instituições financeiras e aos desafios enfrentados por grupos mais vulneráveis da população, incluindo aqueles gerados pela disseminação das apostas esportivas. Nesse contexto, tenho desenvolvido pesquisas sobre crédito, microfinanças, endividamento das famílias e os impactos de políticas públicas voltadas ao sistema financeiro. Mais recentemente, também tenho dedicado atenção ao estudo da eficiência dos processos de compras governamentais e da governança e desempenho de empresas estatais.
Cheguei a esses temas pela convicção de que boas políticas e boas instituições dependem de uma compreensão profunda dos incentivos e comportamentos que moldam as decisões econômicas. Muitas vezes, resultados aparentemente inesperados decorrem não apenas de fatores econômicos tradicionais, mas também de aspectos comportamentais, organizacionais e institucionais que precisam ser melhor compreendidos.
O impacto potencial dessa agenda de pesquisa é bastante amplo. Ao produzir evidências sobre o comportamento financeiro das pessoas, a eficiência das instituições e os efeitos de políticas públicas, buscamos contribuir para decisões mais bem fundamentadas por parte de reguladores, governos, empresas e investidores. Em última análise, isso pode resultar em mercados mais eficientes, políticas públicas mais eficazes e melhores condições de bem-estar para a sociedade.
Tenho tido a satisfação de ver esse trabalho publicado em periódicos internacionais de referência nas áreas de finanças, administração e contabilidade, incluindo o Journal of Public Administration Research and Theory, Journal of Business Ethics, The International Journal of Accounting, Accounting Forum, International Journal of Finance and Economics e Finance Research Letters. A Bolsa de Produtividade em Pesquisa vai justamente me ajudar a continuar a publicar a minha pesquisa em periódicos relevantes internacionalmente.
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O edital de bolsas de produtividade do CNPq completou 50 anos em 2026. Como o senhor enxerga o papel dessas bolsas no campo acadêmico e científico, na retenção de talentos e na geração de inovação no Brasil?
Prof. Rodrigo Leite: Ao completar cinquenta anos, o programa demonstra sua importância histórica para a consolidação da pesquisa brasileira e sua relevância para os desafios futuros do desenvolvimento nacional. As bolsas de produtividade desempenham um papel estratégico para o sistema científico brasileiro. Elas funcionam como um mecanismo híbrido, que combina tanto o reconhecimento da excelência acadêmica como um instrumento de incentivo financeiro à continuidade da produção científica.
Em um cenário global altamente competitivo, essas bolsas ajudam a reter talentos, criar estabilidade para o desenvolvimento de projetos de longo prazo e fortalecer grupos de pesquisa capazes de gerar conhecimento relevante para o país. A inovação nacional depende da existência de um ecossistema robusto de ciência e tecnologia, e isso exige pesquisadores qualificados, instituições fortes e políticas públicas consistentes.
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Que aprendizados o senhor tira de todo esse processo e que mensagem gostaria de deixar para a nossa comunidade Alumni COPPEAD, especialmente para os líderes que estão no mercado tomando decisões baseadas em dados e evidências?
Prof. Rodrigo Leite: Talvez o principal aprendizado seja que os resultados raramente são fruto de ações isoladas. Eles normalmente decorrem de um processo contínuo de aprendizado, disciplina, colaboração e capacidade de adaptação.
Para os líderes que atuam no mercado, acredito que uma grande mensagem é a importância de cultivar uma cultura orientada por evidências. Vivemos em um ambiente de enorme disponibilidade de informação, mas isso não significa necessariamente melhor qualidade de decisão. O diferencial competitivo está na capacidade de transformar dados em conhecimento e conhecimento em ação.
A academia e o mercado possuem objetivos distintos, mas compartilham um princípio fundamental: decisões melhores tendem a surgir quando são guiadas por evidências robustas e por uma disposição genuína para questionar premissas e aprender continuamente.
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Há algum outro aspecto ou ponto sobre o futuro da sua pesquisa que não mencionamos e que o senhor gostaria de destacar?
Prof. Rodrigo Leite: Um aspecto que considero especialmente promissor é a crescente disponibilidade de dados e o avanço das ferramentas analíticas, que permitem estudar fenômenos econômicos e financeiros com um grau de precisão sem precedentes. Isso abre oportunidades para responder perguntas cada vez mais relevantes para empresas, governos e sociedade.
Nos próximos anos, pretendo aprofundar pesquisas sobre inclusão financeira, endividamento das famílias, governança corporativa e avaliação de políticas públicas. Meu objetivo é continuar produzindo conhecimento que combine rigor acadêmico com relevância prática, contribuindo para aproximar a pesquisa científica dos desafios concretos enfrentados pelas organizações e pela sociedade brasileira.



